Conheça o luxo e moda ostentado por ex-escravas antigamente em Sabará

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No século XVIII, em Minas Gerais, algumas escravas conseguiram a alforria, de diversas maneiras. Um caso famoso é da Chica da Silva de Diamantina, nessa postagem iremos falar de outras e da nossa cidade de Sabará.

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Estas mulheres – vou falar especificamente delas – geralmente conseguiam a liberdade ou, pelo menos, uma condição de vida melhor quando se uniam aos homens brancos (havia pouquíssimas mulheres na região). Era comum haver relações estáveis ou casamentos informais (sem a celebração da Igreja) entre brancos e negras ou mulatas, escravas ou libertas.

Estas mulheres, então, esforçaram-se ao máximo para serem aceitas e desfrutarem a posição de senhoras. Foi assim também com Chica, que fez de tudo para ser vista como esposa do fidalgo e poderoso João Fernandes. Aí, a moda e o vestuário adquirem grande importância: no processo de inserção e branqueamento social era necessário estar atento a todos os detalhes.

As alforriadas mais ricas gastavam fortunas em vestidos e saias de tecidos finos, blusas, luvas, chapéus, sombrinhas e jóias, muitas jóias. Aos domingos, faziam um verdadeiro desfile – a exemplo das brancas senhoras – em suas liteiras ricamente enfeitadas para chegar à Igreja e assistir às missas.

 

Maria Ignácia Ribeira
Ignácia Ribeira, forra, moradora no arraial do Pompeu em 1777, possuía uma venda de secos e molhados, um escravo, ouro lavrado em barra, um colar de corais e tinha pago uma quantia avultada por sua liberdade: cerca de 300 mil réis.

Izabel Pinheira

Izabel Pinheira, angolana, morreu viúva, no arraial da Roça Grande, em 1741, possuindo sete escravos que ficaram alforriados e coartados no testamento deixado por ela.

Bárbara de Oliveira

Bárbara de Oliveira, natural da Bahia, que se mudara para Sabará, onde morreu em 1766. Ela possuía 22 escravos (mais mulheres que homens – um conjunto de grande porte, incomum até mesmo entre proprietários brancos). Também tinha muitas jóias e roupas guardadas em canastras, como “uma saia de primavera de seda, uma de droguete preto e uma de seda passado de ouro”. Ela possuía, ainda, ouro lavrado e em pó e muitos créditos na praça que fazia inveja até as mulheres brancas. Como fazia parte da elite ela só gostava de andar no veículo chamado “cadeira de arruar” (Liteira) que um escravo de cada lado carregasse o trambolho em cima dos ombros.

Bárbara Gomes de Abreu e Lima

Bárbara Gomes de Abreu e Lima, que morreu em Sabará, em 1735. Depois de comprar sua alforria, ela formou uma invejável fortuna e montou uma impressionante rede de relações sociais com alguns dos homens mais ricos e importantes da vila.

Bárbara morava em um sobrado imponente, na rua principal, mas possuía outras casas. Tinha muito ouro em pó e lavrado, créditos às dezenas e negócios que não ficaram revelados espalhados por várias regiões de Minas e pela Bahia, de onde viera ainda cativa. De Sabará, ela tudo controlava. Tinha apenas sete escravos, o que não condizia com sua riqueza, sua posição social aparecia mais explicitamente: dezenas de cordões de ouro, vários com corais engranzados, como se dizia na época; além de tecidos de várias partes do mundo. Bárbara era uma das muitas negras que, como Chica da Silva, a amante do contratador João Fernandes, ajudaram a decidir os rumos de Minas.

Cada vez mais a nova historiografia demonstra que essas mulheres não eram exceções nem gente alienada. Elas não lutaram contra a escravidão dos irmãos de cor e de raça, mas, ao atuarem no dia-a-dia, ajudaram a constituir uma sociedade diferente.

Eduardo Paiva é Professor da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de Escravidão e Universo Cultural na Colônia, da editora UFMG

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