Durante décadas, muita gente em Sabará ouviu aquela velha história de pescador e deu risada. Um homem simples dizia existir, escondido sob as águas barrentas do Rio das Velhas, uma antiga embarcação naufragada. Parecia impossível acreditar que aquele rio, hoje tão castigado pelo tempo e pela urbanização, já tivesse sido rota importante de navegação em Minas Gerais.
Mas o improvável aconteceu.
Quase 40 anos depois dos primeiros relatos, escavações feitas às margens do Rio das Velhas revelaram partes de um enorme barco de madeira enterrado sob o lodo. A descoberta movimentou Sabará, chamou atenção de Belo Horizonte e acabou criando uma verdadeira disputa entre as cidades. O episódio ficou conhecido por muitos como uma espécie de “batalha naval mineira”.
Só que o mais impressionante viria depois.
Historiadores passaram a levantar a possibilidade de que aquela embarcação pudesse ter pertencido ao engenheiro Henrique Dumont — pai de ninguém menos que Alberto Santos Dumont, o homem que mudaria para sempre a história da aviação mundial.
A história parece roteiro de filme, mas aconteceu aqui, em Sabará.


A descoberta ocorreu em 1977, quando a Prefeitura de Sabará resolveu investigar relatos antigos feitos por pescadores da região. Entre eles estava um homem conhecido como Zezinho, que insistia há anos que existia uma embarcação afundada nas proximidades do centro da cidade.
Durante muito tempo, ninguém acreditou.
Mas bastaram poucas horas de escavação para que surgissem as primeiras partes do casco de madeira. O achado rapidamente virou notícia e despertou curiosidade em toda Minas Gerais.
O interesse foi tão grande que surgiu até uma proposta para retirar a embarcação de Sabará e levá-la para a Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, como atração turística. A ideia gerou revolta entre moradores e autoridades sabarenses, que defendiam que o barco fazia parte da história da cidade.
A remoção, no entanto, nunca aconteceu. Por ser uma estrutura extremamente antiga e fragilizada, o transporte era considerado arriscado. A embarcação acabou permanecendo onde foi encontrada — às margens do Velhas, guardando seus mistérios.
Anos depois, pesquisadores da história de Sabará começaram a conectar pistas que tornaram a descoberta ainda mais fascinante.
Segundo o historiador José Bouzas, existe a possibilidade de que a embarcação tenha pertencido ao engenheiro Henrique Dumont, pai de Santos Dumont.
Henrique Dumont foi um dos grandes empreendedores de Minas Gerais no século XIX. Nascido em Diamantina, ele viveu em cidades da Região Central, incluindo Sabará, Matozinhos e Santa Luzia. Muito antes de o filho ganhar o mundo com seus experimentos aéreos, Henrique já demonstrava espírito visionário e talento para engenharia.
Ele atuava com exploração de madeira e utilizava o Rio das Velhas como rota de transporte para abastecer a famosa Mina de Morro Velho, em Nova Lima. A suspeita é que o barco encontrado em Sabará fazia parte justamente dessa operação logística.
Se isso realmente for confirmado, o naufrágio se transforma em muito mais do que uma curiosidade histórica: seria um elo perdido entre Sabará e uma das famílias mais importantes da história brasileira.

Quando se fala em Santos Dumont, muita gente pensa apenas na cidade mineira que hoje leva seu nome ou nos voos históricos realizados na França. Poucos sabem que Sabará também possui ligação direta com a trajetória da família Dumont.
Henrique Dumont deixou marcas importantes na cidade. Uma delas foi a antiga ponte sobre o Rio das Velhas, construída no século XIX. Segundo pesquisadores locais, a estrutura representava o espírito moderno e empreendedor do engenheiro, muito antes da fama do filho cruzar os céus da Europa.


Talvez não seja exagero dizer que parte da ousadia que levou Santos Dumont aos ares tenha começado justamente às margens do Rio das Velhas.
Enquanto Alberto desafiaria a gravidade décadas depois, seu pai já desafiava os limites da engenharia, do transporte e do desenvolvimento em Minas Gerais.
Hoje, para muitos moradores, é difícil imaginar o Rio das Velhas cheio de embarcações. Mas durante o século XIX, ele teve papel fundamental na economia mineira.
O rio conectava cidades, transportava mercadorias e ajudava no crescimento de regiões inteiras. Sabará, pela posição estratégica, era um dos pontos importantes dessa dinâmica.
O barco encontrado em 1977 acaba funcionando como uma cápsula do tempo — um lembrete silencioso de uma Minas Gerais movida pelas águas, muito antes das rodovias e dos automóveis.
Talvez o mais fascinante dessa história seja justamente a mistura entre memória popular, mistério e patrimônio histórico.
Tudo começou com um pescador desacreditado.
Depois veio um barco enterrado há quase um século.
Em seguida, uma disputa entre cidades.
E, por fim, a possibilidade de conexão com a família do homem que entraria para a história como o Pai da Aviação.
Sabará possui dessas histórias: aquelas que parecem invenção, mas acabam revelando capítulos esquecidos de Minas Gerais e do Brasil.
E talvez essa seja uma das mais incríveis de todas.
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