No Hospital João XXIII, 70% das vítimas de trânsito atendidas em 2026 são motociclistas

  • Publicado 12 horas atrás

A campanha Maio Amarelo 2026, que promove a conscientização sobre responsabilidade compartilhada no trânsito, traz como tema a frase: “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. A proposta deste ano reforça que, dentro ou sobre cada veículo, há uma vida que precisa ser vista com atenção e respeito.

Em 2026, os motociclistas estão no centro da campanha por representarem uma fatia crescente dos deslocamentos urbanos e, consequentemente, das vítimas de acidentes. No Hospital João XXIII (HJXXIII), da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), foram 2.382 atendimentos a motociclistas registrados até 30 de abril, de um total de 3.431 vítimas de acidentes de trânsito — o equivalente a 70%.

Perfil das vítimas e rotina de risco

O perfil dos pacientes atendidos se repete há anos na unidade: predomínio de homens jovens, entre 19 e 39 anos. Segundo Rodrigo Muzzi, gerente médico do Complexo Hospitalar de Urgência (CHU), muitos são pessoas em idade produtiva e utilizam a motocicleta diariamente como ferramenta de trabalho, especialmente para entregas e deslocamentos urbanos.

Muzzi também destaca situações em que motociclistas acabam passando despercebidos, principalmente quando transitam em corredores formados entre veículos, as chamadas “terceiras vias”, onde podem entrar no ponto cego de carros e, sobretudo, de ônibus.

Ainda de acordo com ele, a pressão do tempo na rotina de quem trabalha pilotando contribui para atitudes arriscadas. Para o gerente, o fato de haver três vezes mais acidentes com motos do que com carros reforça o quanto os motociclistas estão mais vulneráveis no trânsito.

Aumento de vítimas cada vez mais jovens

O ortopedista Alexandre Maru, da urgência do hospital, chama atenção para o aumento de vítimas muito jovens atendidas após acidentes. Em 2025, deram entrada na unidade 595 adolescentes e jovens de 11 a 19 anos envolvidos em ocorrências como motociclistas. Já em 2026até abril, foram 214 registros — número que, segundo ele, pode ter relação com o uso crescente de veículos de duas rodas que não exigem carteira de habilitação.

Maru aponta que muitos casos estão ligados à exposição repetida ao risco e à falsa sensação de controle criada por comportamentos imprudentes. Ele alerta que atitudes como furar sinal, andar em alta velocidade e conduzir de forma agressiva aumentam muito a chance de acidentes graves.

Lesões e consequências podem ser permanentes

A gravidade das lesões, conforme ressalta Muzzi, depende de fatores como a forma da quedauso completo de equipamentos de segurança e velocidade no momento do impacto. Um acidente de moto pode causar desde escoriações leves até ferimentos gravíssimos, inclusive com risco de morte antes da chegada ao hospital.

Entre os casos mais comuns estão fraturas de membros superiores e inferiores, além de traumas cranianos e torácicos severos. Parte dos pacientes consegue se recuperar totalmente durante a internação, mas outros permanecem com sequelas graves, inclusive com comprometimento neurológico permanente.

“Um segundo no trânsito, marcas eternas”

A história do gerente de comércio Davi Pereira, de 31 anos, ilustra como um momento pode mudar a vida de uma família. Ele sofreu um acidente ao sair para uma tarefa simples. Segundo relatou, ao ir à padaria, o carro à frente sinalizou uma curva e não houve tempo de frear, o que resultou em uma colisão forte contra uma mureta.

Davi deu entrada no HJXXIII em 18 de abril, com traumas abdominais e fratura de fêmur. Ele já passou por quatro cirurgias e afirma que, além das marcas físicas, também carrega impactos emocionais: seu filho Oliver nasceu durante a internação, e ele não conseguiu acompanhar o parto.

Para ele, o episódio deixa um alerta: o trânsito não é brincadeira, e uma pequena falha pode afetar profundamente a própria vida ou a de outras pessoas. Agora, a esperança é voltar para casa e viver de perto os primeiros momentos do filho.

Por Anni Sieglitz (texto adaptado para o site Sou Sabará).

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